SEM IDADE 

                   

Fernanda Cachão

Sexo depois dos 60

BENVINDA ROSA  (73 anos) e CARLOS (61) - Foto de Sérgio Lemos

Sete idosos falam sobre sexo e afecto. Testemunhos na primeira pessoa de quem ficou sozinho ou procurou companhia para debaixo dos lençóis. 

Ainda me sabe bem!”, “Ainda preciso”, “Eu ainda sou homem para mais qualquer coisinha” são desabafos de pessoas que ultrapassaram a barreira dos 60 anos. Falavam de sexo.
Uma sondagem da Aximagem para o Correio da Manhã, realizada em Março último, mostra que 34 por cento dos idosos fazem sexo e estão muito satisfeitos.
Em 1984 a Europa tinha 49 milhões de idosos; em 2005, estima-se que sejam 80 milhões. Em Portugal, segundo os Censos de 2001, já ultrapassou a população jovem (16,4 e 16 por cento). Por oposição ao ‘baby-boom’ dos anos 50/60, fala-se agora do ‘papy-boom’ (’papy’ de avô).
Uma explosão demográfica, que se deve ao melhoramento das condições de sobrevida, e obriga a uma mudança de mentalidades; se eles se mantêm activos na sociedade e na família, porque não debaixo dos lençóis?
As histórias de Benvinda, Álvaro e José Luís e a de outros, mostram que é possível a paixão com rugas. A de Bernardete ou a de Maria Arminda falam de uma solidão infinita por se ter sobrevivido sozinha e, mesmo assim, se achar que é melhor.


BENVINDA MARIA ROSA foi casada quase 50 anos com um homem bom, enviuvou dele há sete, há um ano voltou a apaixonar-se. "Não sei se foi por estar estes anos todos sem ninguém eu adoro-o! É muito meigo para mim e muito me beija, muito me apalpa."
A cara pálida de Benvinda cora com o desabafo. Os olhos azuis agarotam-se e o coração bate-lhe no peito em descompasso quando diz o nome Carlos, o cozinheiro determinado que um dia a seguiu e encurralou num corredor de um centro de dia, para lhe roubar um beijo.
A alentejana de 73 anos solta o verbo com prazer e dá à palavra despachar outro sentido, o de cama. Pela primeira vez, diz ela, "despacha-se"; despacham-se ambos. "Eu tenho esta idade mas ainda me sabe bem! Tive estes anos todos sem saber o que era sexo. Ele é muito meu amigo, se eu disser que não estou capaz ou que tenho uma dor, não me aperta mais. O outro era mais bruto, mesmo que me doesse a cabeça, se ele pensasse tinha mesmo que ser. Se não era logo: 'Tens outro'.
Benvinda cresceu na Aldeia de Vale de Gizo com aquele que viria a ser o seu primeiro marido, Júlio. A sua morte ainda apaga da cara o entusiasmo do amor tardio. Ela sente-se viúva, chora o marido e lembra-se bem dos anos de casada.
"No início fui viver com o Júlio para casa da mãe dele e como eu não queria lá certas coisas, o meu marido disse-me: 'Benvinda vamos para o campo, estão ali uns chaparros, vamos fazer umas cavacas."
O pretexto campestre fez dela mulher, na altura desmaiou. Na sua segunda primeira vez, há um ano, protestou pouco mas com pudor: "Ai Carlos, eu fui casada 50 anos e nunca o meu marido me viu nua!"
Mas a persistência do cozinheiro compensou. Tinha-a perseguido para lhe dar o primeiro beijo no centro de dia; andou atrás dela pela casa, na primeira noite, para lhe roubar mais qualquer coisa. Benvinda fugiu da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para o quarto, até ceder: “Eu disse-lhe: ‘Ai Carlos, eu em 50 anos, só vi uma ou duas vezes vi o meu marido nu’”.


JOSÉ LUÍS ANTUNES DA COSTA tem a vida dividida entre duas mulheres: a com quem casou e a de quem se enamorou há um par de anos. "A minha senhora não é muito agarrada a mim. Passam-se um mês, dois e nada Ora eu tenho 73 anos mas funciona, Graças a Deus, e ainda preciso de uma mulher para me dar carinho, para tudo."
O campeão de pesos-pesados de 1954 e 1956 reconhece que o proceder dele levanta dúvidas, mas a necessidade de um meigo regaço fala muito alto. A sua costureira está "estimada" e é muito calma, o reverso da medalha da legítima, ausente mas muito ciumenta.
"Ela diz-me que ainda vai saber quem é a outra e que depois faz e acontece mas é só conversa."
O namoro ateou-se no Ginjal, em Almada, num dia em que o ex-pugilista e a costureira cruzaram o salão de baile enfadados com a sua própria vida. O caso atou como nó de marinheiro.
José Luís ainda atravessa o Tejo para ir à sua casa, à esposa que lhe lava e passa a roupa, mas o remanso gostoso tem ele do outro lado do rio, em Lisboa.
"Acabei com a maluquice de andar com uma e com outra. Agora tenho esta senhora. E que não me venham dizer que, a partir de certa altura, o sexo não tem importância porque tem."
Uma vida sem uma dor de cabeça, sem uma falha no item que lhe interessa, foi posta em causa há três anos. Um electrocardiograma lembrou-o de que o tempo passa, que já não é o campeão dos anos 50, que o que nunca falhou pode quebrar um dia.
"Talvez o repouso ajude a que nunca tenha ficado mal mas sei que isto não é eterno. Se algum dia chegar tenho um desgosto. Mas espero que isto esteja bem mais uns bons anos."


MARIA ARMINDA GUERREIRO teve cinco filhos de um marido que ia e vinha e, quando vinha, era só para a deixar mais mãe. "A minha tia dizia: 'os vossos encontros são só para arranjar bebés. Eu respondia: 'que é que vou fazer?!' É o meu dever de mulher e de mãe."
Maria Arminda tem 88 anos, é angolana, veio para Portugal depois do 25 de Abril. Nos seus olhos, a saudade de Sá da Bandeira onde casou virgem com Zé Rufino.
A vida entre os lençóis foi tapada por uma existência sofrida, ele gostava de bebida e liberdade e ela de carinho. "À maneira dele, acho que gostava de mim mas só para arranjar filhos?! Não senhor, os filhos precisam de comer, de vestir e o carinho para eles, para mim?! É só na cama que a gente gosta da pessoa?!"
Festas e beijos, Maria Arminda teve em dose curta e ressentia-se: "Eu devia gostar porque lhe dizia: 'os carinhos não são só quando estamos deitados."
Na sua existência pendular, Zé Rufino acabou os dias na África do Sul e ela não voltou a casar.
Quis o destino que um dos filhos do casal saísse ao pai: o rapaz cortou o Atlântico para o Brasil e, durante quinze anos, ninguém soube dele. "Um dia, a minha nora disse-me que ia tratar da sua vida e eu respondi-lhe que me parecia muito bem. Casou com outro e é muito feliz a minha nora."
Maria Arminda esfrega o punho da sua bengala, como se este fosse mágico e pudesse o tempo voltar atrás. "Eu acho bonito, a história da minha nora. Às vezes, ainda digo: este calhava-me mas é só brincadeira. Agora é muito tarde. Ficava mal."


ÁLVARO BARRETO PIRES parece um velho bailador de tango, cabelo repuxado para trás, certa pose de salão que lhe ficou no corpo depois de muitos anos a dançar. Aos 60 anos, o mecânico de automóveis ainda alivia a existência na Alunos de Apolo e em todas as tardes dançantes da capital.
Entre um passo e outro, muitas mulheres lhe passaram pelos braços. Uma, há quatro anos, lá se aninhou. "A primeira vez que ela veio aos Alunos de Apolo dançou comigo. Tremia por todos os lados agarrada a mim. Começámos a conversar e foi preciso dois meses, muitos telefonemas e almoços, para ir com ela para a cama."
A namorada tem 52 anos e é viúva. Diz Álvaro que, "honestamente, ela nunca teve vida conjugal à séria." Ele encarregou-se de reparar o mal feito – "uma pessoa quando tem uma certa idade deve ter um espelho em casa para se ver. O corpo está deformado e com a mulher é a mesma coisa. Portanto, tem de haver diálogo e amor."
Álvaro Pires veio de Angola para Alfama em 1961, no final da adolescência, sem ter conhecido mulher. Lembra-se da sua primeira paixão, cândida, feita de olhares no eléctrico e depois de outros cinco relacionamentos sérios e de uma enfiada de mulheres que não distingue.
"Tive fora de Lisboa a trabalhar e arranjava sempre uma mulher, sabendo que tinha cá a minha, à espera. Era uma necessidade. Aos 27, 30 anos é quando um homem precisa mais. Isso mantém-se até aos 45 anos, depois decai."
A Álvaro arregala-lhe os olhos ao ouvir o nome do comprimido azul mais popular. Ele nunca provou do milagre. No porta-luvas do carro tem comprimidos receitados pelo médico para o stress.
"Auxiliam a potência porque me aliviam a cabeça. É que isto aqui em baixo depende muito do que se passa cá em cima."


MARIA BERNARDETE DOS SANTOS está escangalhada há 12 anos, desde que enviuvou. "Perder um filho é o maior desgosto que se tem na vida porque é uma coisa nossa, é a nossa carne, mas se se perde um marido fica a vida escangalhada."
Bernardete casou com o carpinteiro de moldes, António, depois de terminado um namoro de varanda com certo viúvo que um dia a abordou assim junto à Pedra Furada, em Setúbal: "Estive no Ultramar e enquanto lá estive, a minha mulher morreu. Preciso refazer a vida e a menina é uma das que me interessa." Ela tinha 17 anos; aos 82 anos recorda o diálogo pouco amoroso como se estivesse a ser-lhe repetido ao ouvido. "O primeiro beijo que ele me roubou deixou-me um calor na cara! Ui!..."
O fogo não chegou a atear e desmanchado o namoro "por intrigas", conheceu o carpinteiro da sua vida. Ele era divorciado. Casaram contra a vontade dos pais dela. "O meu casamento foi maravilhoso. Ele era muito amigo de me fazer as vontades."
Bernardete tira do bolso do casaco o lenço, apaga a lágrima da cara, sente falta do marido nas coisas terrenas da casa que perdeu, da companhia que se foi, da cama que com ele partilhava. "Com o tempo perde-se a paciência para namorar. Mesmo assim, no Inverno, ele ia sempre primeiro para a cama aquecer-me o lugar."
Com o lenço com que enxugou o choro, Bernardete tapa o intrometido sorriso que a memória lhe trouxe. Entre a vergonha e a falta que lhe faz, diz: "Eu mesmo com uma certa idade, com o meu marido nunca perdi aquilo. Só por doença." António morreu aos 87 anos.


ÁLVARO SERRA DA SILVA embeiçou-se de Sãozinha por cima da mesa do almoço de um centro de dia. "Gostei logo do físico dela." Tiradas as medidas à mulher de cabelo branco e formas arredondadas, abordou-a à antiga, perguntou-lhe se "com licença, ela era comprometida." A resposta, "viúva", foi melodia das antigas. Sãozinha, de 58 anos, correspondeu a Álvaro, de 82.
"Eu já tinha vindo a este centro de dia mas ela ainda cá não estava. Na altura, as senhoras eram ainda mais acabadas do que eu e se arranjasse alguma, nem dava tempo de ficar viúvo outra vez. Ela ia e eu a seguir também."

Faz seis anos no dia de Natal que Álvaro enviuvou de Judite. Ele lembra-a com a lágrima que trai a frieza masculina. Judite era "boa mãe, boa esposa e boa nos restantes particulares."

Quando a perdeu, afundou-se na solidão. Tentou amores ao acaso para lhe animar a existência. "Tive só mulheres que me pediam emprestado. Eram namoradas e mais qualquer coisa mas só se serviram de mim."
Há pouco mais de um mês, a primeira noite com Sãozinha foi fortuita. Álvaro viu-se na rua, sem poder regressar ao quarto onde morava e pediu-lhe guarida. "Dormi vestido na cama dela. Tive vergonha de me apresentar logo todo sem melhor conhecimento."
O antigo calceteiro passou a ir todos os dias a casa de Sãozinha – e lá se foi a vergonha. "Tomei-lhe uma afeição tão grande que fazemos a vidinha juntos. Ela é muito carinhosa comigo e eu com ela. É que eu ainda sou homem para mais qualquer coisinha."


JAIME ALMEIDA não poupa um piropo a uma mulher bonita mas sempre com respeito. "Um dia levei uma estalada porque um meu companheiro de escola e de guerra apalpou o rabo de uma rapariga, com a mão por detrás de mim. Ela vai, pensou que era eu e zuca!"O taxista de 63 anos chateou-se com o amigo e com a incompreensão dele de regra elementar: "Se tens no rés-do-chão não vás ao primeiro andar. É que como lhe digo muitas vezes: cuidado, já estamos velhos."
Jaime enviuvou há sete anos, separou-se há dois meses de uma namorada cujo retrato traz no porta-moedas.
"O que me atraiu nela não foi o físico, foi a sinceridade e o asseio." Predicados terrenos de quem reconhece que o fulgor dos 20 ficou lá atrás. "Na vida íntima, a gente faz os possíveis. Não são duas todos os dias mas são com muito entusiasmo!"
Entusiasmo, reconhece o taxista, ainda assim não comparável àquele aceleramento cardíaco que sentiu aos 14 anos e que lhe revirou a existência do avesso. "A primeira vez foi com uma rapariguinha que o meu tio me arranjou. Por cinco escudos. Depois não queria outra vida. Davam-me dinheiro para o cinema e, no outro dia, lá estava eu com a rapariguinha."
Nunca morreu na praia, não sabe o que é o Viagra, sempre se recusou a usar preservativo, Jaime Almeida estabelece as suas regras na cartilha do prazer:
"Quando faço amor tenho de gostar, se não, é na mata, toma lá dá cá. Não tenho medo de nada, nunca apanhei uma doença. Preciso, vamos embora. E eu continuo a precisar!..."


MÁRIO SIMÕES, PSIQUIATRA: CONTINUAR A PEDALARMÁRIO SIMÕES, psiquiatra - Foto de Marta Vitorino
"A sexualidade numa idade mais avançada tem sobretudo a ver com aquilo que a pessoa foi em jovem", diz Mário Simões, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa e médico em consultas de psicogerontologia há mais de 20 anos.
"Costuma-se dizer que, para se ter uma vida sexual activa tem de se pedalar durante toda a vida. O ciclista, se deixar de pedalar, cai."
Na terceira idade, a sexualização do corpo continua mas é muitas vezes feita de "equivalentes sexuais: carícias, beijos, apalpões e dormir encostados como duas colherzinhas."
Nos homens, o acto da conquista mantém a importância da juventude devido à educação, ao meio social e à testosterona. Mesmo em casos de disfunção eréctil, o desejo continua também devido à pouca quebra ao longo da vida da referida hormona. "Nesses casos, em homens que valorizaram muito a parte sexual, chegam a dizer que não vale a pena continuar a viver."
Por associar mais o sexo ao afecto, as mulheres passam melhor sem actividade sexual. "Há excepções à regra mas as mulheres se não tiverem carinho e um projecto comum preferem fingir que estão a dormir. Já os homens diferenciam sexo e sexo com amor. Eu costumo dizer-lhes que se quiserem comer cerejas à noite têm de cavar batatas durante o dia."


O TABÚ SEXUAL
LUÍS JACOB - Formador em gerontologia e sexualidade - Foto de Pedro Catarino
"Quando as funcionárias de um lar informam os filhos que o seu pai ou a sua mãe tem um amigo(a) especial é uma carga de trabalhos, alguns chegam a tirá-los da instituição" diz Luís Jacob, formador em gerontologia e sexualidade e director da Universidade Sénior de Almeirim.

Luís Jacob diz que esta resistência ao prolongamento da vida afectiva depois dos 60 é um tabu; técnicos e família dificilmente aceitam que, nessa altura da vida, ainda exista espaço para a sexualidade.
Mas o tabu é extensível aos próprios idosos: "É frequente que, nas acções de esclarecimento, se dividam entre aqueles que censuram e os que acham normal a actividade sexual na terceira idade."
A censura deve-se à educação, à religião e à própria norma social instalada, itens repressores da actividade sexual e que diferenciam a sua importância entre os dois sexos. Para os idosos, o sexo é ainda assim mais aceitável do que para as idosas.
“Confronto-me muito com homens idosos que recorrem frequentemente a prostitutas sem usarem qualquer protecção. Tento não ter uma atitude muito censurável. Como é que se convence alguém a usar um preservativo quando durante toda uma vida o não fez?!”


DISFUNÇÃO ERÉCTIL EM SEVER DO VOUGA
Em 2000 a equipa do centro de saúde de Sever do Vouga levou a cabo um estudo sobre disfunção eréctil (DE) em meio rural, entre os 18 e os 90 anos (360 inquérito recebidos), para a Sociedade Portuguesa de Andrologia. Conta o médico e responsável pelo estudo, João Terrível, que depois de muitas reticências iniciais, em todas as idades, falar sobre ‘quando a coisa falha’ acabou por ser mais fácil para os homens entre os 56 e os 75 anos, aqueles onde havia mais incidência de DE.
Depois da desconfiança inicial, passaram a ir ao Centro de Saúde sobretudo idosos acompanhados pelas esposas. "O que procuravam? 'Pretendemos ainda ser felizes, estamos para isso decididos a utilizar a medicação disponível, desde que não existam contra-indicações', estas eram as frases comuns no nosso dia-a-dia de estudo", conta João Terrível.
 

Fernanda Cachão 

 Capa da revista 'DOMINGO' - suplemento do 'CORREIO DA MANHÃ" de 02.10.2005    Artigo in Correio da Manhã - Correio de Domingo  2005-10-02